Tática

Como Dorival Júnior monta o time: o processo de decisão tática

Entenda como Dorival Júnior define a escalação da Seleção Brasileira, seu processo decisório tático e o uso de dados na Copa 2026.

Rafael Santos 6 min de leitura
Ilustração editorial sobre futebol brasileiro
Ilustração: Brasil Copa do Mundo

A cada convocação da Seleção Brasileira, uma pergunta domina os debates entre torcedores, jornalistas e analistas: como Dorival Júnior define a escalação? O processo de montar um time titular a partir de um elenco repleto de jogadores de classe mundial que atuam nos maiores clubes do planeta é um exercício que combina análise técnica, intuição construída ao longo de décadas de carreira e, cada vez mais, o uso de dados e tecnologia. Compreender esse processo é fundamental para entender as escolhas táticas que a Seleção Brasileira apresentará na Copa do Mundo de 2026.

O ponto de partida: observação contínua

O trabalho de definição de uma escalação não começa na semana do jogo. Para Dorival Júnior e sua comissão técnica, o monitoramento dos jogadores convocáveis é uma atividade permanente que ocorre ao longo de todo o ano. Cada membro da equipe técnica é responsável por acompanhar uma liga europeia ou um grupo específico de jogadores, produzindo relatórios semanais sobre desempenho físico, forma técnica e contexto tático nos clubes.

Nos bastidores da Seleção, esse trabalho de observação se apoia em uma rede de analistas que utilizam plataformas especializadas de dados. Métricas como Expected Goals, passes progressivos, pressões bem-sucedidas e distância percorrida por jogo são compiladas e comparadas ao longo das temporadas. A CBF investiu nos últimos anos na modernização de seu departamento de análise de desempenho, incorporando ferramentas que permitem cruzar dados de diferentes fontes e gerar perfis comparativos entre jogadores que disputam a mesma posição.

Esse trabalho é complementado pela experiência presencial. Dorival e seus auxiliares viajam regularmente à Europa para assistir jogos ao vivo e, quando possível, conversar diretamente com os jogadores. Essas visitas permitem captar aspectos que as estatísticas não revelam, como o estado emocional do atleta e sua motivação para defender a Seleção.

O papel dos dados na decisão

A incorporação de dados no processo decisório do futebol brasileiro é relativamente recente, mas sob Dorival Júnior ganhou protagonismo sem precedentes. O treinador encontrou na Seleção uma estrutura que lhe permite utilizar a análise de dados de forma sistemática.

O processo funciona em camadas. Primeiro, os dados brutos de desempenho são coletados e organizados. Em seguida, analistas cruzam esses dados com informações contextuais, como a qualidade dos adversários enfrentados e a posição exata ocupada pelo jogador no clube. Por fim, a comissão técnica se reúne para discutir os dados à luz da experiência e do conhecimento tático, chegando a conclusões que alimentam as decisões de convocação e escalação.

Esse modelo não é exclusivo do Brasil. Segundo relatórios da FIFA, a maioria das seleções classificadas para a Copa de 2026 utiliza departamentos de análise de dados robustos, e o uso de inteligência artificial para projetar cenários táticos tem se tornado cada vez mais comum no futebol de elite. O diferencial, portanto, não está apenas em ter acesso aos dados, mas na capacidade de interpretá-los e transformá-los em decisões práticas dentro de campo.

Plataformas como o Transfermarkt fornecem dados públicos valiosos sobre desempenho e valor de mercado, mas a comissão técnica da Seleção opera com bases de dados privadas que incluem rastreamento por GPS, mapas de calor individualizados e análise biomecânica para prever riscos de lesão.

A adaptação ao adversário

Um dos traços mais marcantes do trabalho de Dorival Júnior é sua disposição para adaptar o time ao adversário. Diferente de treinadores que se apegam a uma formação fixa e uma filosofia rígida, Dorival demonstra pragmatismo tático ao ajustar o sistema de jogo conforme as características do rival.

Nas Eliminatórias Sul-Americanas, essa adaptabilidade ficou evidente. Contra adversários que se fechavam com linhas baixas, como Bolívia e Venezuela, Dorival optou por formações com mais jogadores criativos no meio-campo e laterais projetados, buscando romper bloqueios defensivos pela amplitude e pela troca de passes. Contra rivais que propunham jogo aberto, como Argentina e Uruguai, a Seleção adotou postura mais cautelosa, com meio-campo mais povoado e apostando em transições rápidas.

Essa flexibilidade exige que os jogadores sejam polifuncionais e compreendam mais de um sistema tático. A história do futebol brasileiro nas Copas do Mundo mostra que as seleções campeãs foram aquelas que souberam se reinventar ao longo do torneio, adaptando-se às exigências de cada fase. O Brasil de 1994, por exemplo, utilizou formações diferentes na fase de grupos e nas fases eliminatórias, sempre priorizando a funcionalidade sobre a estética.

O fator humano: além dos números

Apesar da crescente importância dos dados, Dorival Júnior enfatiza que a decisão final é sempre humana. Em entrevistas, o treinador tem afirmado que os dados são ferramentas de suporte, não substitutos para o olhar experiente e para a sensibilidade que apenas o convívio com os jogadores proporciona.

O estado emocional do grupo é um fator que nenhum algoritmo consegue mensurar com precisão. Em uma Copa do Mundo, a capacidade do treinador de ler o ambiente e perceber quais jogadores estão mentalmente prontos para cada partida pode ser tão decisiva quanto qualquer análise tática.

Dorival também considera as relações entre os jogadores dentro de campo. A conexão entre Vinicius Jr e Rodrygo, companheiros de Real Madrid, ou a parceria de Marquinhos com diferentes zagueiros, são exemplos de sinergias que transcendem o que os dados conseguem capturar.

A gestão do elenco no formato de 48 seleções

A Copa do Mundo de 2026 apresenta um desafio logístico e tático sem precedentes. Com o novo formato de 48 seleções, o campeão precisará vencer até sete partidas, o que torna a gestão do elenco um elemento estratégico de primeira ordem. Dorival Júnior terá que equilibrar a necessidade de escalar o melhor time possível em cada jogo com a obrigação de preservar jogadores para as fases decisivas do torneio.

Esse planejamento começa na convocação dos 26 jogadores. A lista precisa contemplar não apenas os melhores em cada posição, mas também atletas versáteis que cubram mais de uma função e reservas que mantenham alto nível competitivo mesmo com menor tempo de jogo.

A Seleção Feminina tem sido referência nesse aspecto, demonstrando que a rotação inteligente ao longo de torneios longos é fundamental para manter a intensidade competitiva. No masculino, Dorival tem adotado princípio semelhante, utilizando as últimas convocações para testar combinações e dar minutos a jogadores que podem ser acionados em momentos cruciais da Copa.

A escalação como resultado de um processo

Compreender como Dorival Júnior monta o time é entender que a escalação de cada jogo é a ponta visível de um iceberg composto por meses de observação, análise de dados e gestão humana. Cada nome no time titular representa uma decisão fundamentada em múltiplas camadas de informação, filtrada pela experiência de um treinador que dedicou toda a sua vida ao futebol.

Na Copa do Mundo de 2026, essas decisões serão escrutinadas por milhões de torcedores. A análise tática de cada jogo será dissecada em tempo real. Mas, como a história do futebol ensina, os grandes treinadores mantêm a clareza do processo mesmo sob pressão intensa. Conforme documentado pela CONMEBOL, o trabalho metodológico das comissões técnicas sul-americanas evoluiu enormemente na última década, e o Brasil de Dorival Júnior é um exemplo dessa transformação. O resultado em campo dirá se o processo foi suficiente para devolver ao Brasil o topo do futebol mundial.