Copa 2026

O Brasil em solo americano: a conquista do tetra na Copa de 1994

Relembre a campanha vitoriosa do Brasil na Copa de 1994 nos EUA, com Romário, Bebeto, Dunga e Taffarel rumo ao tetracampeonato.

Pedro Almeida 6 min de leitura
Ilustração editorial sobre futebol brasileiro
Ilustração: Brasil Copa do Mundo

Em 2026, a Seleção Brasileira voltará a disputar uma Copa do Mundo em solo americano. A última vez que o Brasil competiu nos Estados Unidos, em 1994, o resultado foi histórico: o tetracampeonato mundial, conquistado após 24 anos de jejum que atormentava o futebol brasileiro. Relembrar aquela campanha não é apenas um exercício de nostalgia, mas uma forma de entender os paralelos entre aquele momento e o desafio que se apresenta em 2026.

O jejum de 24 anos e a pressão sobre a Seleção

Quando o Brasil desembarcou nos Estados Unidos para a Copa de 1994, a Seleção carregava o peso de não conquistar o título mundial desde 1970, quando Pelé e companhia encantaram o mundo no México. Nas edições seguintes — 1974, 1978, 1982, 1986 e 1990 — o Brasil apresentou equipes talentosas, mas que esbarraram em eliminações dolorosas. A geração de 1982, com Sócrates, Zico e Falcão, é frequentemente lembrada como a melhor seleção a nunca vencer uma Copa.

O técnico Carlos Alberto Parreira assumiu a missão de quebrar o jejum com uma proposta que gerava debates acalorados: um time mais pragmático, equilibrado e defensivamente sólido, diferente do futebol-arte que o mundo associava ao Brasil. A dupla de volantes formada por Mauro Silva e Dunga dava sustentação ao meio-campo, enquanto a genialidade individual ficava concentrada nos pés de Romário e Mazinho, com Bebeto oferecendo mobilidade e inteligência tática no ataque.

Essa abordagem mais cautelosa gerou críticas ferozes na imprensa e entre os torcedores, mas a história provou que Parreira estava certo. O equilíbrio entre solidez defensiva e poder ofensivo foi a fórmula que devolveu ao Brasil o lugar mais alto do pódio mundial.

A fase de grupos: início promissor

O Brasil estreou no dia 20 de junho de 1994, em Stanford, Califórnia, contra a Rússia. A vitória por 2 a 0, com gols de Romário e Raí, deu tranquilidade ao grupo. Na segunda rodada, uma vitória convincente por 3 a 0 sobre Camarões, com Romário marcando duas vezes, e na terceira rodada, a vitória por 1 a 0 sobre a Suécia, com gol de Romário mais uma vez, carimbaram a classificação como líder do grupo com 100% de aproveitamento.

O desempenho na fase de grupos demonstrou exatamente o que Parreira buscava: uma equipe que não precisava de goleadas para convencer, mas que vencia com segurança e eficiência. Romário, aos 28 anos e no auge de sua carreira, comandava o ataque com a arrogância genial que lhe era característica, convertendo cada oportunidade em gol com uma naturalidade desconcertante.

O mata-mata: superando obstáculos

Nas oitavas de final, o Brasil enfrentou os anfitriões, os Estados Unidos, no dia 4 de julho, feriado de independência americano. Diante de um estádio lotado e uma atmosfera hostil, a Seleção venceu por 1 a 0, com gol de Bebeto, em uma partida marcada pela intensidade e pela pressão do adversário.

As quartas de final trouxeram a Holanda, em Dallas, sob um calor escaldante. O jogo é considerado um dos mais emocionantes da história das Copas. O Brasil venceu por 3 a 2, com Romário e Bebeto marcando gols decisivos. A virada holandesa que quase igualou o placar nos minutos finais testou os nervos de toda uma nação, mas a Seleção resistiu.

Na semifinal, a Suécia novamente, desta vez no Rose Bowl, em Pasadena. O Brasil controlou o jogo e venceu por 1 a 0, com gol de Romário, alcançando a final pela primeira vez desde 1970. A celebração do gol, com Romário correndo em direção à torcida, é uma das imagens mais icônicas da história do futebol brasileiro.

A final: Brasil vs Itália e a decisão nos pênaltis

A final aconteceu no dia 17 de julho de 1994, no Rose Bowl, diante de mais de 94 mil espectadores. Brasil e Itália, as duas seleções com mais títulos mundiais à época, protagonizaram uma partida tensa e equilibrada que terminou em 0 a 0 após o tempo regulamentar e a prorrogação. Pela primeira vez na história, uma final de Copa do Mundo seria decidida nos pênaltis.

A tensão era palpável. A cada cobrança, o coração de milhões de brasileiros acelerava. Quando Roberto Baggio, o grande craque italiano, isolou sua cobrança mandando a bola por cima do travessão, o Brasil era tetracampeão mundial. Taffarel, o goleiro que defendeu o gol brasileiro durante todo o torneio com segurança e bravura, caiu de joelhos no gramado. Dunga, capitão e símbolo daquele time guerreiro, ergueu a taça com lágrimas nos olhos.

Os heróis do tetra

Romário foi eleito o melhor jogador da Copa de 1994, e com justiça. Seus cinco gols no torneio, sempre decisivos, foram a expressão máxima do futebol de oportunismo genial. A capacidade de Romário de aparecer nos momentos mais importantes, de transformar meias-chances em gols, fez dele o protagonista incontestável daquela conquista.

Bebeto, parceiro inseparável de Romário, contribuiu com três gols e assistências fundamentais. A celebração do “embalar o bebê”, criada por Bebeto após marcar contra a Holanda nas quartas de final — uma homenagem ao nascimento de seu filho Mattheus — tornou-se uma das comemorações mais reproduzidas da história das Copas do Mundo.

Dunga liderou a equipe com autoridade e entrega. Criticado por representar um futebol mais cauteloso, o capitão provou que liderança e comprometimento são tão importantes quanto talento. Taffarel, nos penáltis da final, gravou seu nome entre os grandes goleiros da história, segundo registros da FIFA.

Paralelos com 2026: o Brasil volta à América

A Copa de 2026 trará o Brasil de volta ao solo americano, desta vez com o torneio expandido para 48 seleções e um novo formato. Os paralelos com 1994 são inevitáveis: assim como naquela época, o Brasil chega após um período de instabilidade e busca de identidade. Dorival Júnior, como Parreira, enfrenta o desafio de encontrar o equilíbrio entre tradição e eficiência.

As diferenças, é claro, são significativas. O futebol evoluiu enormemente em termos táticos e físicos. A globalização transformou o mercado de jogadores e as condições de preparação. A tecnologia aplicada ao futebol permite análises detalhadas que eram impensáveis nos anos 90.

Mas a essência permanece a mesma: o Brasil precisa de um grupo unido, de líderes em campo e de jogadores capazes de brilhar nos momentos decisivos. A Seleção Feminina também tem mostrado que a garra brasileira transcende gerações e gêneros, servindo como inspiração para o time masculino.

Para o torcedor brasileiro, relembrar 1994 é reacender a chama da esperança. Se há 32 anos o Brasil foi capaz de superar um jejum de 24 anos e reconquistar o mundo em solo americano, por que não pode repetir o feito em 2026, após 24 anos sem levantar a taça desde 2002? Os números são curiosamente simétricos, e os romanticos do futebol enxergam nisso um sinal. A CBF e a comissão técnica trabalham para que, desta vez, o desfecho seja igualmente glorioso. As Eliminatórias já ficaram para trás, e agora o foco é total na preparação para brilhar mais uma vez na América.